No comments yet

Setembro: mês da Bíblia

“Tua Palavra é lâmpada para os meus pés e luz para o meu caminho!” (Sl 119,105)

Por que setembro é o mês da Bíblia ?

Antes de aprofundar essa questão, gostaria de relembrar o mês anterior, isto é, o mês de agosto, dedicado às vocações sacerdotais, religiosas e leigas que enriquecem e contribuem « para » e « na » missão da Igreja, inserida no mundo, cujo sinal visível é de ser « o sacramento universal da salvação », segundo a Constituição Dogmática Lumen Gentium n. 48.

Entre as diversas vocações (sacerdotais, religiosas e leigas) que tivemos a oportunidade de meditar no mês passado, em nossas diversas comunidades eclesiais, todos os batizados são chamados, na Igreja e no mundo, a viverem o único chamado de Cristo à « santidade ».

Por esta razão o Concílio Vaticano II, sobretudo na Constituição Dogmática Lumen Gentium, capítulo V, declara categoricamente a « Vocação Universal à Santidade na Igreja ».

Não importa qual a vocação, seja ela diretamente pertencente à hierarquia eclesiástica (sacerdotes e consagrados na vida religiosa) ou apascentados por ela (leigos e leigas), todos nós batizados, sem exceção, somos chamados à santidade (LG, V n.39).

Dito isto, a Igreja no Brasil, nos faz agora meditar neste mês que se inicia, como sendo o mês dedicado à Bíblia. Se o mês de agosto foi o mês vocacional, setembro é o mês da Bíblia. E logo após setembro, entraremos no mês de outubro, mês dedicado às missões.

E nada disso é por acaso ! Existe uma motivação nesses meses temáticos, uma preocupação pastoral e catequética da Igreja no Brasil de retomar com ardor e vigor a V Conferência Geral do Episcopado Latino- Americano e do Caribe, manifestado no Documento de Aparecida n. 10 : « A grande tarefa de proteger e alimentar a fé do povo de Deus e recordar também os féis deste Continente que, em virtude de seu batismo, são chamados a ser discípulos e missionários de Jesus Cristo ».

E nenhum batizado se torna discípulo e missionário de Cristo, se o mesmo, não se colocar à escuta da Palavra de seu Mestre. Para termos « familiaridade e intimidade » com Jesus e, para aprofundarmos os nossos diversos ou múltiplos comprometimentos com a Sua missão, todos nós batizados devemos sempre retomar, em nossas vidas concretas, o apelo de Jesus : « Minha mãe e meus irmãos, são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em pratica » (Lc 8, 21).

No mais, este mês foi escolhido pela Igreja porque no dia 30 de setembro é dia de São Jerônimo (ele nasceu no ano de 340 e faleceu em 420 d.C.). São Jerônimo foi um grande biblista e foi ele quem traduziu a Bíblia dos originais (hebraico e grego) para o latim, que naquela época era a língua falada no mundo e usada na liturgia da Igreja Católica Apostólica Romana.

Ao longo da história do pensamento humano a Palavra de Deus inspirou igualmente a consciência humana a procurar a verdade sobre o Real e sobre as realidades antropológicas dentro de uma perspectiva holística, isto é, abarcando as realidades físicas e espirituais como um todo e, concomitantemente, evitando-se uma leitura ou interpretação fragmentada e fundamentalista.

Grandes pensadores, inspirados pela Palavra de Deus, conseguiram interpretar a vida em geral, conciliando as múltiplas facetas da existência e elaborando um discurso “intra-disciplinar”, isto é, dialogando com a sabedoria bíblica com outros saberes, visando uma harmonia do “todo” da existência.

Jacques Maritain, Henri Bergson, Emmanuel Levinas, Gabriel Marcel, Pierre Teilhard de Chardin e muitos outros filósofos, influenciados pela antropologia bíblica, chegam até a conceber a existência humana como uma única realidade fundamentalmente transcendental, metafísica. Pela inspiração da Palavra de Deus a inteligência humana pode até pensar o real de uma maneira totalmente inovadora e audaciosa, como podemos vislumbrar nesta afirmação de Teilhard de Chardin: “… não somos seres humanos vivendo uma experiência espiritual, somos seres espirituais vivendo uma experiência humana”.

A mensagem bíblica, sobretudo com a mensagem de Jesus de Nazaré, Seu Evangelho, a “Boa Nova”, moldou pensamentos filosóficos modernos que resultaram em reflexões antropológicas e análises sociais integrais, superando a compreensão materialista e meramente histórica do discurso científico positivista de nossa era moderna e pós-moderna. Nesta perspectiva encontramos eco na filosofia moral e social de Jacques Maritain que pleiteava que o “verdadeiro cristianismo é, na realidade, um humanismo integral”. Ou ainda o filósofo católico Bernhard Welte que na sua abordagem ontológica, sobre o “ser”, vai além da metafisica de Martin Heidegger, sugerindo uma “ontodontologia”, isto é, não apenas um “ser-ai-no mundo”, “Dasein” heideggeriano, mas um “ser-se-doando”, na plenitude do encontro e do diálogo, respeitando, é claro, toda alteridade ontológica de cada ser único e insubstituível no Planeta.

Todavia, a Igreja Católica colocou recentemente nas mãos dos cristãos um novo documento na qual o então papa Bento XVI, hoje papa emérito, traz orientações precisas a todos os que desejam, de fato, se aprofundar na Palavra de Deus. Trata-se da Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini, sobre a Palavra de Deus, na vida e na missão da Igreja, promulgada em 30 de setembro de 2010, data da memória litúrgica de São Jerônimo.

Tal documento magisterial é dividido em três partes : Verbum Dei, Verbum Ecclesia e Verbum Mundo. O conteúdo principal desta Exortação Verbum Domini expressa-se nas palavras “relacionamento” e “encontro” que aparecem mais de 40 vezes nas 386 páginas do documento.   Todo homem é capaz de escutar e de responder livremente ao chamado de Deus e à Sua Palavra. O gênero humano, segundo a Revelação Bíblica,  foi criado na “Palavra” e vive na mesma: o homem não pode entender a si mesmo se não se abre a este diálogo com Deus, que é, na realidade, um “colóquio de amor”.

Entretanto, a inteligência humana sozinha não é capaz de entender e de absorver plenamente a Palavra de Deus sem a atmosfera “in Ecclesia” (na Igreja). Deus nos fala em muitas realidades, como na própria Sagrada Escritura, nos sacramentos, na história e na consciência humana. Mas é na liturgia que a escuta na fé tende a ligar a Palavra de Deus ao sacramento, fonte e cume de toda a vida da Igreja. Na liturgia, a Palavra de Deus é celebrada como Palavra atual e vivente, afirmará Verbum Domini.

Finalizando, que todos nós batizados, no decorrer desse mês de Setembro, possamos ter um apreço especial para com a Palavra de Deus, dedicando um bom tempo do nosso cotidiano, para fazermos uma leitura orante da Palavra de Deus, a Bíblia, seja ela o Antigo ou o Novo Testamento.

Façamos um esforço pessoal e comunitário para reavivarmos em nós as orientações da Constituição Dogmática Dei Verbum, cap. IV n. 26 que nos diz : « Assim, pois, que pela leitura e estudo dos Livros Sagrados seja difundida e glorificada a Palavra de Deus e que o tesouro da Revelação confiado à Igreja cada vez mais encha os corações dos homens ».

E que transcorridos os dias desse mês de setembro, possamos entrar com dinamismo e entusiasmo para o vindouro mês de outubro, dedicado as missões. De modo que a nossa vocação, não importa qual ela seja, na Igreja e no mundo, possa fazer jus a própria « natureza » missionária da Igreja que: « Enviada por Deus às Nações para ser o sacramento universal da salvação, esforça-se a Igreja por anunciar o Evangelho a todos os homens » (AD GENTES, n. 1 ).

Que Nossa Senhora Aparecida, Mãe do nosso Salvador, e São Jerônimo intercedam por cada um de nós ! Amém !

Pe. Ms. Edenilson Roberto Pinto

Pároco da Paróquia de Santa Luzia – Promissão.

Post a comment