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OS ATOS HUMANOS REFLETEM A OPÇÃO DA PESSOA

“É possível que o maior pecado do mundo de hoje consista em que os homens começaram a perder o senso do pecado.” 

A afirmação de Pio XII, dirigida em sua Mensagem ao Congresso Catequético de Boston, em outubro de 1946, parece ser muito atualizada e, ao mesmo tempo, repercutir a perda de sensibilidade do ser humano diante dos seus atos, ou seja, aos poucos, o próprio ser humano foi, gradativamente, perdendo o senso do que se compreende e se experimenta por pecado. Alguns, mais otimistas, preferem pensar que este processo faz parte de um momento desumanizador da sociedade que está se deixando infiltrar por contravalores. Outros, à luz da perspectiva religiosa, acreditam que o sensor religioso (ou “pseudo-religioso”) fez desaparecer o conceito de culpa frente o pecado, deixando a consciência não ficar “angustiada” pelo peso da tristeza e do remorso. Tanto de um lado como do outro, parece ser muito realista a sensibilidade de que o conceito de pecado passa pela relação dos atos humanos e morais da pessoa, a qual se choca com a realidade, se deixa comover emocionalmente, se deixa esquecer, permitindo que à culpabilidade irracional e patológica, suceda-se uma inocência demasiadamente aberta, sem fios norteadores para a conduta. Assim, o ser humano deixou de se culpar e tornou-se inocente!

O reflexo deste “susto da perda de sensibilidade do pecado” pode ser decorrente da reticência dos teólogos, ou da falta de interesse despertada pelo assunto, ou aparente esgotamento do tema. Tudo, de modo resumido, sofreu o estigma do ameaçador da compreensão do pecado como castigo e calamidade, tornando-o como um afastamento humano, um conflito entre o bem X mal, a misericórdia X ofensa, ou um exagero em centralizar o pecado e esquivar-se da graça divina. Atualmente, o próprio Catecismo da Igreja Católica quer apresentar o pecado como algo que não pode ser visto na sua individualidade, mas na perspectiva do Evangelho da Misericórdia, o que ajudaria a compreender a necessidade de se viver na radicalidade da trilha de Deus. Aquém desses conceitos, a catequese da misericórdia elaborada pelo Papa Francisco, incluindo o Ano Extraordinário da Misericórdia (encerrado em 20 de Novembro de 2016), favoreceu uma perspectiva conceitual do pecado e do desejo da aproximação ao caminho da reconciliação.

Muitos penitentes dirigiram-se (e continuam frequentando) ao (o) espaço do encontro com o perdão de Deus!

Qualquer que seja o pecado ou a forma para se alcançar o perdão, é indispensável o ARREPENDIMENTO, ou seja, a maturidade pessoal diante do erro cometido e, ao mesmo tempo, da complacência de Deus a favor do pecador. Para tanto, antes de qualificar as diferentes modalidades confessionais, é preciso recordar a necessidade do EXAME DE CONSCIÊNCIA, o qual poderia ser feito em famílias, nos grupos religiosos, pastorais, visando uma experiência comunitária da solidariedade salvífica.

Podemos, de acordo com as orientações do Magistério (RP, 32; Código de Direito Canônico; Motu Proprio Misericordia Dei), considerar três possibilidades para celebrar o perdão:

  • Reconciliação Individual do Penitente ou Confissão Individual: considerada a mais significativa e, portanto, deveria ser praticada por todos os cristãos. Torna-se um momento de “direção espiritual” e encontro pessoal na fé diante do sacerdote;
  • Reconciliação de Vários Penitentes com a Confissão e a Absolvição Individual ou a Celebração Comunitária do Perdão com perdão particular: podendo ser aplicada em todos os casos, após um exame de consciência entre todos os fiéis. Após o exame comunitário, cada penitente procura o sacerdote para receber a absolvição, mediante a confissão auricular;
  • Reconciliação de Vários Penitentes com a Confissão e a Absolvição Geral ou a Celebração Comunitária do Perdão com Absolvição: devendo considerar as graves necessidades. Quando este tipo for aplicado, o mais rápido possível, deverá o penitente procurar o sacerdote para confissão auricular.

Ao ministério da Reconciliação, Cristo confiou à Igreja a missão de restaurar e de curar – como bem resume o ministério de Jesus, unido cura e perdão dos pecados. Basta lembrar algumas palavras de Jesus, como a dirigida ao paralítico: “Filho, os teus pecados estão perdoados!” (Mc 2,5).

É preciso recordar que a “coragem de falar” das próprias faltas e participar da confissão sacramental pode estar sendo prejudicada pela falta de confessores, os quais ajudem as pessoas ao encontro do “Médico Divino” (seja por causa do tempo ou da ausência de instruções psicoterapêuticas para saber escutar as pessoas). Neste sentido, como escreveu Gertrud von LE FORT, muitos procuram a “absolvição do psicanalista”, que não “sabe” reconhecer o pecado (no sentido moral) e a profundidade do abandono a Deus, fazendo a pessoa sentir-se desprezada. Há que se considerar, ainda, que o medo do confessante, tal como a sua vergonha ou sentimento de culpabilidade, estejam sendo causa de se sentir incapaz de confessar seus pecados, apesar de toda boa vontade.

Pelo arrependimento profundo, o pecador deixa atrás de si as potências obscuras, e retoma assim nova orientação. Pela contrição, quando ela atinge o seu ser, o pecador supera seu passado, deixando atrás de si não só os pecados particulares do passado, mas também todo o seu eu pecador (…). Ele não só confessa ‘PEQUEI’, mas também e até mais: ‘SOU PECADOR’.” (RP, 31). Portanto, o arrependimento e a contrição são condições essenciais para a busca de uma vida inteiramente convertida.

O Sacramento da Reconciliação (do Perdão, da Penitência, do Encontro com Deus, da Misericórdia, da Vida Nova) lembra o aspecto misericordioso da Igreja, sem julgar, mas reconciliar.

Portanto, aproveitemos todas as ocasiões para buscar o equilíbrio pessoal e vivenciar a possibilidade de uma nova vida, neste encontro misericordioso com Deus por meio do sacramento reconciliador. Assim, que Jesus, Fonte de Misericórdia, acolha nosso arrependimento e nos ensine a trilhar um novo caminho, contando com a proteção da Mãe da Misericórdia em favor de nossa conversão!

 

 Pe. Márcio Vanderlei Gil Trojillo
Pároco da Paroquia Santa Terezinha do Menino Jesus
Glicério – SP

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